História

A origem da palavra Caxambu

Da revista “Fontes da Vida “ ed. Julho de 1962

Caxambu devia grafar-se cachambu, porque bem de duas palavras africanas: cacha (tambor) e mumbu (música). O vocabulário servia, ao tempo dos escravos, para designar não só o instrumento que eles tocavam nas danças, mas ainda a própria dança ou batuque.

Dizem uns que, outrora, os negros vindos de Baependy e circunvizinhanças, costumavam reunir-se nas referidas Águas e aí celebravam batuques memoráveis, ao som dos seus caxambus, e assim, do hábito do convite “Vamos ao caxambu”, ficou o termo aplicado ao próprio sítio da festa.

Outros referem a lenda de que as águas das fontes, principalmente quando ainda um grande brejo ali dominava, produziam, borbulhando, um murmuro mais ou menos violento e de certo modo comparável ao rufar do tambor dos escravos.

Mas a explicação mais cabível é, sem duvida, a que faz derivar a designação “Caxambu” do morro existente, o qual é de forma cônica, exatamente como o instrumento africano. Isso parece verdadeiro, porque há outros lugares em Minas chamado também Caxambu e todos situados sobre ou junto a algum morro de forma cônica ou de cone truncado. Assim há em Maria da Fé um Caxambu, e em S. Jose dos Botelhos encontra-se um arrabalde, distante cerca de duas léguas com o mesmo nome de Caxambu e que oferece as condições topográficas já argüidas.

Segundo outros, entre eles o Dr. Pais Leme, o topônimo CAXAMBU, teria sido originado dos vocabulários brasílicos CAA (mato) + XA (ver) + UMBU (riacho), o que resultaria: MATO QUE VE O RIACHO.

Nós entretanto discordamos,

O topônimo “CAXAMBU” não é de origem africana as traduções, Cacha (tambor) e mumbu (música) assim como a outra do Dr. Pais Leme CAA (mato) + XA (ver) + UMBU (riacho) não são exatas; o nome Caxambu é de origem indígena; dos bugres que habitaram as regiões de Baependy; nome também dado pelos nativos Cataguases, que, em diversas tribus, viveram em Minas Gerais, “Typi” cabeça de geração ou raiz-mãe.

Chamavam também “Tapuia”, que significa “avós”.

Com a corruptela “Typi”, veio “Tupy”, assim sempre, depois denominados (Vêde “história antiga de Minas Gerais”, Diogo de Vasconcelos).

O nome Caxambu, já existia antes do local ser apossado pela concessão das Sesmarias, a diversas famílias dos Bandeirantes Paulistas, fundadores de Baependy.

É assim que, recorrendo ao Dicionário Geográfico do Dr. João Mendes de Almeida, jurisconsulto e político conservador na Capital paulista, no seu livro, à pagina 67, ele diz: – Caxambu é uma fonte de águas minerais na província de Minas Gerais.

Aplico aqui este nome por serem muito procuradas por enfermos estas águas, Caxambu corruptela de Cata-mbu, golfa ferve.

De cata “golfar, fazer torvelinhos, borbulha; “mbu, o mesmo que pu “ferver”, mudado o “p” em “mbu” por causo do som nasal de “catã”.

Alusivo a golfar da terra a fonte, fazendo bulhões ou uma como fervesse”. Em Tupi, a palavra Caxambu significa “bolha?” e com referencia a água, é a bolha que o liquido faz como “a ferver”.

Esta explicação satisfaz a origem da palavra indígena – Caxambu.

Segundo a versão de H. Sanchez Quell embaixador do Paraguay em 1957, a palavra CAXAMBU é de origem GUARANY.

Versão também aceita e mais ou menos idêntica, a de origem Tupy.

CAXAMBU – CAA – UMBÚ – MURMÚRIO DA SELVA.


Música de Noel Rosa – Chove de Vento

Quem nunca viu
Chuva de vendo a fantasia
Vá em Caxambu, de dia
Domingo de carnaval!
Chuva de vento
Só essa de Caxambu!
Domingo chove chuchu
E venta água mineral!
Um espanhol
Que está me ouvindo desconfia
Dessa chuva a fantasia
Que abala Caxambu
Esse espanhol
Que na mentira não me ganha
Garantiu que lá na Espanha
Chove bala pra chuchu!
Chuva de vento
É quando o vento dá na chuva
Sol com chuva – céu cinzento
Casamento de viúva
Zeca Secura
Da fazenda do Anzol
Quando chove não vê sol
Vai comprar feijão no centro
Bebe dez litros
De cachaça em meia hora
Pra aguentá chuva por fora
Tem que se molhar por dentro
Vento danado
É aquele lá de Minas
Sopra em cima das meninas
Diverte a população
Até os velhos
Vão correndo pras janelas
Pra ver se algumas delas
Já usa combinação
Fez sol com chuva
Uma viúva lá da Penha
Disse que não há quem tenha
Tanto pretendente junto
Mas um por um
Dos pretendentes é otário
Pois o vencedor do páreo
Ganha resto de defunto
Quem nunca viu
Chuva de vento a fantasia
Vá em Caxambu de dia
Domingo de carnaval
Chuva de vento
Só essa de Caxambu
Domingo chove chuchu
E venta água mineral!
Um Zé Pau-d’água
Tem um amigo parasita
Não trabalha e sempre grita
Viva Deus e chova arroz!
Gritando assim
Do seu povo ele se vinga
Viva Deus e chova pinga
Que arroz nasce depois
Chuva de vento
Muita gente desconfia
Dessa chuva fantasia
Que eu vi em Caxambu
Se o espanhol
Contar a dele não me ganha
Vai dizer que na Espanha
Chove bala pra chuchu!


Copa do Mundo de 1954

Concentração da Seleção Brasileira de futebol de 1954

Da revista “O Cruzeiro“

Era intensa a expectativa sobre o local da concentração do selecionado brasileiro, já em plena posse do “salvo conduto” para as finalíssimas da Copa do Mundo na Suíça. Mas depois que os representantes da CBD visitaram Caxambu, tão logo regressaram ao Rio de Janeiro, determinaram de imediato que as malas dos craques fossem arrumadas e despachadas para aquela saudável cidade mineira. Ora, nada mais natural e acertado do que a decisão dos fiscais da CBD. Uma estância de férias como Caxambu, cujo Parque das Águas dispõe de instalações modelares que ressaltam os magníficos recursos naturais de suas fontes que jorram à flor da terra as mais diversas composições de águas minerais. Cumpre, aliás, citar e com detalhes – que o Parque das Águas de Caxambu é o mais completo do Brasil, no que diz respeito ao aproveitamento hidroterapêutico das águas de suas fontes. A área do Parque foi recentemente ampliada para 280.000 m2, cobrindo com esta ampla superfície as instalações do Balneário, cujas dependências arejadas e modernas estão dispostas dentro de um plano técnico impecável. Nada existe no Brasil que seja comparável aos recursos do Balneário em duchas escocesas, ministradas que são, em oito ótimas salas. Seus banhos carbo-gasosos naturais recebem água mineral que é tratada com o cuidado de preservar as suas propriedades naturais, seguindo das fontes até as banheiras sob pressão em encanamento e recipientes inoxidáveis, onde é dosada com gás carbônico natural e aquecida apenas ate a temperatura exigida pela prescrição médica. Além do mais, o Parque ostenta, na encosta de um bem ajardinado morro, uma inigualável PISCINA DE ÁGUA MINERAL, que se abastece do precioso liquido nas fontes Mayrink! Essa piscina é, certamente, a única do mundo em seu gênero, dispondo ainda para seus banhistas de quarenta vestiários incomparáveis e modernos. As onze fontes de águas minerais dispensam qualquer comentário, uma vez que já se tornaram célebres dede o tempo do Império, não só pela sua surpreendente variedade, sabores e propriedades medicinais, como também pela constância absoluta verificada em analises oficiais, que se vem repetindo há mais de quarenta anos. Os caminhos que dão acesso às fontes, por entre o vasto ajardinamento do Parque, são todos revestidos com pedra-são-tomé. Finalmente, para completar a beleza panorâmica, o fundo do Parque apresenta um lago de margens sinuosas com uma superfície de 50.000 m2. Daí, podemos facilmente concluir que os craque do futebol brasileiro só deixarão Caxambu completamente revigorados, isto é, em absoluta forma de saúde, mesmo porque qualquer atleta do mundo, que se sentisse cercado de todas as oportunidades esplendidamente salutares, como as do Parque de Caxambu, teria sobre o adversário, na hora da peleja, uma vantagem considerável. Portanto, desejamos ao selecionado brasileiro, que pise o gramado suíço com o pé direito, porque do contrário não serão aceitas desculpas com respeito ao preparo físico.


Rui Barbosa

Em visita a cidade de Caxambu o ilustre brasileiro Rui Barbosa
escreveu estes versos sobre o Parque das Águas.

“Visitei, percorri, desfrutei,
Com admiração e encanto
O Parque das Águas;
É a medicina entre jardins
De uma florescência deslumbrante.
Minas ainda não percebeu
Todo valor de sua jóia.
Quando o lapidar e engastar
Como ela pede,
Estas fontes de vida.
Verterão luz, como de estrelas
Que vá falar bem longe,
Aos que sofrem,
Dos suaves privilégios deste torrão abençoado.”

Rui Barbosa, 19 de outubro de 1919.


Visita da Princesa a Caxambu

Extraído do livro “Baependi”, de José Alberto Pelúcio.

Visita Beija-mão. Te Deum. Baile.
Nomes de ruas. Uma fábrica. Recordações.

Corria o ano de 1868. O município iria receber a visita da herdeira do trono brasileiro, a princesa d. Isabel. A notícia de tal evento, naqueles tempos, devia a todos muito interessar, despertando a curiosidade dos baependianos, que teriam, assim, oportunidade de conhecer pessoalmente aquela que, com o decurso dos tempos e acontecimentos, teve o cognome de Redentora.

Era, então, presidente da Câmara Municipal de Baependi José Pedro Américo de Matos.

Em sessão extraordinária, de 28 de agosto de 1868, reuniu-se a referida Câmara, que ouviu de seu presidente a declaração de ter sido a sessão convocada para o fim de “resolver-se a respeito da recepção da Princesa Imperial que se esperava passasse a cada momento por este município”, etc. “Que constando agora não se realiza mais a viagem de Sua Alteza, fica prejudicada esta parte”, etc.
Infere-se do citado trecho, constando do Livro de Atas de 1866 a 1869, o interesse que a visita despertou no pequeno mundo oficial do município, momentaneamente decepcionado com o que constou sobre a não realização da viagem.

Esse desencanto, porém, não durou muito, porque, logo a 5 de setembro do mesmo ano, vemos a dita corporação municipal, reunida extraordinariamente, movimentar-se, tomando providências para a recepção.

O procurador da Câmara compareceu à sessão; o Presidente expôs as circunstâncias da freguesia e cidade e pediu o concurso dos vereadores para que se promovessem melhoramentos locais. Ficou resolvido que um portador fosse ao Rio de Janeiro fazer compras necessárias, tais como – resposteiros, dossel, retrato do Imperador, etc. nomeou-se uma comissão para festejos, composta do Presidente da Câmara, vereadores e pessoas gradas.

As viagens ao Rio eram dificeis, realizadas a casco de animais, durante dias. O portador especial, que de Baependi seguiu para fazer compras, foi João Batista Nogueira, levando 6 bestas e recebendo pelo trabalho 100$000.
Ainda na sessão da Camara, de 2 de novembro de 1868, foi o Presidente autorizado a fazer a limpeza do terreno das Águas Virtuosas. Nesse serviço poderia gastar até 50$000.

Outras deliberações foram tomadas.

O vereador José Franklin Diniz Junqueira ofereceu 100$000 para as despesas; organizou-se programa; nomearam-se outras comissões.
Do programa constava – que a Câmara iria a Caxambu encontrar os visitantes e solicitar dia e hora para ser recebida; compareceria reunida, depois, solicitando dia para um Te Deum, em ação de graças. Deliberava-se “na cidade serão recebidos com a maior demonstração de aplauso possível, colocando-se uma banda de música fronteira a sua residência, e se pernoitar na cidade aí de noite a banda de musica tocará num coreto, a cidade se iluminará nas noitres de estada de S.A.A.A. O Senhor Presidente irá ao seu encontro na 1ª povoação do municipio”, etc.

A comissão de comércio, para festividades, ficou assim constituida: Manuel de Seixas Batista (tio do ex- deputado José Pereira de Seixas); José Teixeira de Oliveira (pai de José Teixeira de Andrade); Bigorna & Cia, (firma composta de Manuel Martins do Pilar e Francisco Martins do Pilar, irmãos, portugueses; p 1º, avô do dr. Brotero Antônio do Pilar Cobra, o 2º, pai do dr. Manuel Martins do Pilar); Marx & Irmãos (firma composta de Augusto Marx e Adolfo Marx, irmãos, franceses; o 1º, pai do dentista José Augusto Marx, o 2º, pai do dr. Moisés Marx); alferes Francisco Marcelino Pereira e Manuel Constantino Pereira Guimarães (este, sogro do dr. João Coelho Gomes Ribeiro).

Para comissão de artistas foram escolhidos: Antônio Pinto de Aguiar, José Bonifácio, Benedito Martins, José Dias e Fortunato José de Santana.

Também ficou assentado oficiar-se ao Delegado Consular portugues, para assistir ao Te Deum, ao encontro e auxiliar nos festejos; assim como a todas as autoridades, no mesmo sentido, convidando-se todos os cidadãos para o encontro, em Caxambu e Baependi.
Foi ainda nomeada, para festejo a SS. AA., a seguinte comissão:

D. Francisca A. Viotti e suas irmãs (irmãs do dr. Policarpo Rodrigues Viotti); d. Mariana, mulher do dr. Máximo (avô do dr. Carlos Coimbra da Luz); d. Elisa Leopoldina Nogueira (irmã do ex-deputado e jornalista Amaro Carlos Nogueira); d. Maria Madalena Viotti; d. Emilia, mulher do alferes Antonio José Gomes de Carvalho; d. Maria Leal de Oliveira; d. Francelina Simões (mãe do dr. Oliveira Simões); d. Ana Engrácia (mãe de mons. Marcos Nogueira); d. Emília, mulher de Luiz Fernandes (delegado consular portugues); d. Joana de Melo e Sousa (cunhada do comendador Matos); d. Pudenciana, mulher de João de Almeida (sogra do jurisconsulto dr. Joaquim Bernardes da Cunha); d. Antônia, mulher do Tte.-cel. Guerra; d. Coloriana Enout de Meireles (irmã do dr. Enout); d. Maria Sena; d. Joaquina, mulher de Manuel Constantino (sobrinha do conego Monte-Raso); d. Antônia Leopoldina Nogueira e suas filhas (mãe, a 1ª, do já referido Amaro Nogueira e do dr. Antônio Tristão Nogueira); d. Florencia, mulher de João Flausino (irmã do dr. Manuel Bernardes); d. Maria Esméria Nogueira e sua filha; d. Silvéria, filha de Antônio José de Seixas (mulher do voluntário do Paraguai, alfedes Joaquim José de Sousa Pacheco); d. Beatriz. Mulher do dr. Tomáz (avó do dr. Silvio de Almeida); d. Rita Catão (nora de Olímpio Catão, mulher do dr. Antônio Carlos Carneiro Viriato Catão, mãe do ex-senador Alfredo Catão); d. Ana Isabel Ferreira (esposa do escrivão José Joaquim Ferreira); d. Tereza Joaquina de Oliveira (avó do dr. Raul N. Sá); d. Luiza, mulher de Justo Maciel (mais tarde – baronesa de Maciel); d. Maria Rita, mulher de José Teixeira (mãe de Joaquim Teixeira de Andrade); d. Luiza, mulher do cap. José Inácio (irmã do dr. Jequiriçá); d. Teresa, mulher de Gabriel Joaquim de Oliveira; Madame Maliss, mulher do dr. Manuel Bernardes; d. Ana Zeferina de Jesus; d. Marcelina de Seixas e suas filhas (mãe, a 1ª, do cônego Manuel Carlos de Seixas Rabelo); d. Maria Batista, mulher de Antonio Pinto; d. Antônia, mulher de Hipólito (avó da esposa do dr. José Antônio Nogueira); d. Emerenciana, mulher do tte. Manuel Antônio Pereira (mãe do comendador Joaquim Pereira); d. Júlia, mulher de Antônio Marcelino (avó de dr. Mário Ferreira); d. Antônia, mulher de José Bonifácio; d. Maria, esposa do dr. Torquato; d. Antônia, mulher de Chaves; d. Maria, mulher de Teodoro Francisco Nogueira; d. Carolina e sua filha (mulher, a 1ª, de Vicente Peixoto e mãe do farmacêutico Frederico Peixoto); d. Carolina Borges (mulher de Joaquim Alves Borges, cunhada do barão de Maciel); d. Guilhermina, mulher do alferes Francisco Marcelino Pereira; d. Maria, mulher do cap. Manuel Alves Maciel; d. Ana, mulher de Júlio Cesar; d. Rita, mulher de Aureliano Candido de Almeida; d. Maria Umbelina, mulher de José Silverio; d. Isabel, mulher de Sergio (mãe do maestrino José Ricardo da Luz); d. Maria e filhas, a 1ª, mulher de Bento Nunes (avó) do dr. Jorge Dias); d. Heliodora Teotônia (cunhada de Nhá Chica, fundadora da Igreja da Conceição, de Baependi); d. Francisca Teotônia; d. Maria Marfisa Moreira (mãe de Martinho Lício); d. Ana e filha, mulher, a 1ª, de Venâncio da Rocha Figueiredo; d. Mariana e filha, mãe, aquela, de Brasiel; d. Carlota Raposo (mãe do maestro Francisco Raposo); d. Rita e filha, a 1ª, mulher de Antonio Diocleciano (sobrinha da baronesa de Maciel); d. Marfisa e filha, a 1ª, a mulher do cap. Francisco Antonio de Carvalho e Melo; d. Placidina e filhas, mulher, aquela, de José Rodrigues Pinheiro; d. Maria, mulher do tte. José Romão Nogueira; d. Rita, mulher de Francisco Gomes Nogueira.

Se grande era a animação nas esferas oficiais, menor, possivelmente, não era a que devia reinar no seio da sociedade baependiana, notadamente no mundo feminino, cujas atenções estavam naturalmente voltadas para os extraordinários festejos em perspectiva, cuidados de indumentária, ornamentação da cidade, etc.

Efetivamente, foi intensa a movimentação de Baependi, por ocasião da chegada de suas altezas ao municipio. Várias famílias, muitos cavaleiros, deixaram a sede municipal, com destino a Caxambu, indo lá assistir à chegada da Princesa, enquanto outros seguiam para Boa Vista, onde forma encontrá-la.

No trajeto que fizera, do Rio para Minas, a Princesa, diz-se, vindo sempre à frente da comitiva, certas ocasiões parava em casas pobres, mostrando-se afavel com todos.

Deixando Boa Vista, chegaram, com acompanhamento, entre festas, a Caxambu, a princesa Isabel e o conde d’Eu, ficando hospedados em uma das casas pertencentes ao dr. Carlos Teodoro Bustamante, em frente ao desaparecido Parque Hotel, casa essa que ficou servindo de palácio.

Nessa localidade, a princesa lançou a pedra fundamental da igreja de Santa Isabel. Foi uma cerimônia que atraiu a Caxambu muita gente de Baependi; diversas famílias desta cidade para lá se transportaram, armando-se, no local onde devia ser colocada a pedra fundamental, um vasto barracão, da fazenda vermelha, para abrigo dos assistentes.

Refere o livro Tombo, da matriz de Baependi, que “sendo parocho desta freguesia o R.mo Monsenhor Dr. Luiz Pereira Gonçalves de Araujo de 1868, foi esta cidade visitada por S S A A o Sr. Conde d’Eu e sua Ser.ma consorte D. Isabel, princesa herdeira: foram hospedados em Caxambu, onde fizeram o lançamento da pedra fundamental da igreja de Santa Isabel de Hungria, sendo officiante o parocho, e ajudante o R.do P.e João Pires de Amorim, acolythados pelo minorista Marcos Pereira Gomes Nogueira”; que “A estada de S. S. A. A. em Caxambu e nesta cidade, foi no correr dos meados de Novembro de 1868, tendo sido o lançamento da pedra fundamental da Igreja de Santa Isabel a 19 do dito mês faziam parte da comitiva – o R.do João Pires de Amorim, capelão, Conde e Condessa de Lages, viadores, Dr. Feijó, medico. Em Caxambu havia então apenas o Cruzeiro no alto onde se lançou a pedra; e que ali se benzera e levantara em 3 de maio de 1862, depois de Missa cantada em capela campal, sendo então V.o o R.do Conego Joaquim Gomes Carmo”.
Se bem que silencie o livro Tombo, citado, registramos a informação, que nos foi prestada, de haver, nessa ocasião, ocupado a tribuna sagrada o já referido mons. Luiz, assim como a de que a pedra fundamental estava ordenada com fitas, sendo, no ato, com ela enterradas certas moedas.

Encontramos na ata da sessão da Camara de Baependi, de 15 de dezembro de 1868, o seguinte: “O Senhor Presidente declarou apresentou o auto da fundação do lançamento da Pedra Fundamental da Igreja de Santa Isabel de Ungria que vai edificar-se na Águas Virtuosas do Caxambu, cujo auto foi entregue por Sua Alteza Imperial Dona Isabel para ser arquivado na Camara. Foi recebido com agrado; ordenou a Camara se puzesse uma capa e ficasse arquivado”.

Mas, vamos à visita à cidade de Baependi. Esta devia estar vibrante; muita gente, rua enfeitas, ostentando arcos.
Os visitantes eram seguidos de grande acompanhamento de pessoas, que da cidade se dirigiram a Caxambu.
Música, animação.

O prédio residencial de José Pedro Américo de Matos, na época um dos melhores da cidade, bem situado, com amplos salões, foi o escolhido para a hospedagem de suas altezas, que, efetivamente, no mesmo edifício permaneceram, durante sua estadia em Baependi.
Na casa a que acima nos referimos, houve ao que informam, beija-mão.

A sala principal, de frente, à direita de quem entra, estava lindamente ornamentada, guarnecendo-a cortinas brancas e muitas flores.
Meio-dia, mais ou menos.

Isabel afastou-se do fundo, vindo mais para o centro do salão; estava ladeada pelo conde d’Eu e pessoas gradas, trazia um vestido claro, azulado, simples, tendo nos cabelos uma fita azul-clara.

Dava, risonha, suas mão aos beijos de cavalheiros e damas que entravam.

Aqui referimos um episódio que nos foi contado por um descendente do velho republicano dr. Policarpo Rodrigues Viotti, filho ilustre de Baependi; – O respeitável Francisco Viotti, pai do dr. Policarpo, mostrou desejos de que este fosse beijar a mão de Isabel, escusando-se o filho, por já cultivar sentimentos republicanos; penetrou no salão, onde se realizava a cerimônia, apertou simplismente a mãoprincipesca, sem nela depor o beijo, e afastou-se.

Notada foi, também, conta-se, a atitude de Antônio de Seixas, por ocasião da passagem de Isabel e de sua comitiva para Caxambu; estava assentado à porta da sua residência, sita à entrada do caminho para aquela localidade, e assentado continuou, sem nenhum interesse mostrar pelos que passavam.

Como já ficou dito, do programa oficial constava um Te Deum, uma ação de graças. Foi o mesmo cantado na igreja matriz da cidade. Para lá partiram os visitantes da casa do presidente Matos, acompanhados de pessoas gradas, banda de música, passando sob arcos, erguidos até a igreja.

Esta, festivamente ornamentada, ostentava muitas flores, ricos arcos guarnecidos de damasco vermelho, com franjas amarelas, nos altares laterais, no cruzeiro central, no altar-mor. Ao lado esquerdo deste, armou-se um torno, com alguns degraus, dossel, dois assentos para ss. aa. Receberam ambos, então, de mãos do menorista Marcos Pereira Gomes Nogueira, velas de cera, grandes, para a solenidade religiosa; do lugar de distinção que lhes reservaram, assistiram ao cerimonial.

O templo regorgitava de povo; a música, as luzes, a ornamentação, tudo, enfim, concorria para extraordinário brilho daquela festividade.

O livro Tombo não se refere a nenhum sermão, ao ensejo do Te Deum; esclarece apenas: “De Caxambu, vieram S.S.A.A. duas vezes a esta cidade; a primeira para assistir o solene Te Deum, cantando, na matriz, em ação de graças por tão grata visita a esta parochia, e receber muitos obsequios do civismo baependiano, para que tiveram de falhar, consagrando um dia na mais doce convivência com os baependianos: a Segunda foi para ouvir na matriz a Missa de viagem celebrada no altar-mór pelo Monsenhor Vigário da Paroquia”.
Entretanto, do programa da Camara constava que se oficiaria ao pároco, afim de celebrar o Te Deum “e recitar discurso analogo ao acto”.

Finda a cerimônia, retiraram-se os visitantes, acompanhados como vieram.

A cera, comprada para o Te Deum, de Francisco da Silva Azevedo, custou 127$400.

Vimos, acima, que Isabel e o conde d’Eu tiveram de falhar em Baependi; os festejos, à noite, aí, deviam interressar vivamente a todos. Não se esqueceram da iluminação da cidade, música, etc; conta de girandolas foi apresentada à camara; posteriormente, por Antônio Odorico Gonçalves Moura. Os festejos de rua deviam ser atraentes para o povo, habituado, naqueles tempos, ao toque de sino, anunciando a recolhida cedo.

A sociedade mais fina, porém, tinha sua atenção voltada para o grande baile que ia ser oferecido aos visitantes.
Os amplos salões do paço municipal iam ser abertos ao escol baependiano, e aquele baile devia passar, como passou, a viver na memória, não só da sociedade de então, mas, também, na da seguinte, que da predecessora recebeu a narrativa da referida festa.
Realizou-se o famoso baile no edifício, já demolido, da Câmara Municipal.

Achava-se o prédio belamente ornamentado; a parte da direita de quem entrava, com acesso por uma larga porta, com arco de vidros de cores, onde funcionava o Tribunal do Juri, era constituida por um amplo salão quadrangular, que deitava, por dois de seus lados, várias janelas, tendo, à esquerda, outras dependencias, excelentemente dispostas. Aí o local para as danças.
As salas ornavam-se de flores, folhagens; havia luzes em profusão.

O salão principal estava guarnecido de reposterios, ostentando coroas de louros, vendo-se nele belo dossel com retratos dos Imperantes, em rica moldura dourada; do centro, de formoso lustre, jorrava a claridade, também emanada de artísticos e pesados candelabros de bronze – serpentinas para múltiplas luzes.

No salão, ao lado, a música.

Os trajes, tanto masculinos como femininos, eram de rigor. Os homens apresentaram-se de cartola, trazendo casaco e gravata branca, sapatos de verniz; alguns, envergavam fardões brilhantes.

As damas, tantas de encantadora formosura, ostentavam lindas vestes. Ondeavam pelas salas, numa policromia magnífica, os vestidos de cuadas longas. Os decotes deixavam que os bustos se embebessem de luz, entremostrando esplendores de beleza feminina.
Os vestidos guarneciam-se e flores artificiais, muito usadas então; não só os vestidos, mas, também, os cabelos, assim se ornavam.
Verdadeiras grinaldas coroavam as gentis cabeças das moças mineiras, caindo-lhes em galhos floridos pelos dorsos juvenis.
Em uso estavam sapatinhos de setim, leves, especialmente os de cor branca.

Aos pescoços, alvos como lírios ou morenos-rosados como flores de jasmineiro-manga, prendiam colares com imitação de pérola; vestiam à polonesa, e as saias brancas, engomadas, levemente farfalhavam ao seu airoso andar.

A moda, em fazendas, era a dos chamalotes, popelinas, nobreza, barege, veludos bordados, tarlatanas.

Os perfumes preferidos eram: – Sândalo, Mil Flores, Essência e Rosas, etc.

Isabel trazia um vestido extremamente simples, de tecido branco, leve, espécie de cassa; tão simples que chamou a atenção e, muito tempo depois, ainda se repetia que aquilo fora uma verdadeira lição de modéstia.

Dançou a primeira quadrilha com o presidente da Câmara, José Pedro Américo de Matos. Este recebeu, posteriormente, a comenda da Ordem da Rosa; foi deputado provincial.

A princesa retirou-se, ao que soubemos, antes de se findar o baile, ficando, assim, os pares em maior liberdade, depois de sua retirada.
Muita alegria, muito entusiasmo, durante a reunião. As danças mais em uso eram – quadrilhas, lanceiros, chotes, polcas, valsas vienenses.

O serviço de copa foi o melhor possível; as habilidades de nossas conterrâneas foram postas à prova. Bandejas, ricamente enfeitadas, enchiam-se dos mais delicados e saborosos doces: eram fartes, pastéis de nata, queijadinhas, bolinhos de coco, de amendoim, mães-bentas, pudins, canudos, suspiros, fatias da rainha, tarecos, fatias douradas, etc., e, enfeitando os doces magníficos, lindos e caprichosos alfenins, formando, com suas massas doces, flores admiráveis, pássaros tremulando sobre perninhas feitas de canutilhos dourados, coisas várias, interessantes, que tanto enlevo produziam em nossas prendadas avós.

Bebidas: vinhos finos, cervejas, licores – pessego, aniseta, marasquino, etc.

Em um dos compartimentos, à esquerda do salão principal, ficava a sala destinada às senhoras.

A título de curiosidade, aqui damos, em rápidos traços, a descrição das graciosas vestes de duas de nossas conterraneas, naquele famoso baile – d. Raquel Nogueira de Andrade Assunção, mocinha, na época, – d. Elisa Nogueira de Andrade, também jovem, então. A primeira trazia vestido branco, ornado com flores (um avental de rosas); flores da mesma cor e folhas verdes. A segunda trajava um vestido de tarlatana muito fino, azul-claro, com palmas de seda frouxa, decotado, com mangas curtas de filó, franzidas, por baixo de outras azues; três sobressaias, colar de contas azues, uma presilha de fitas azues nos cabelos. Usava perfume Mil Flores.

Outra dama que, dizem, chamou muito a atenção, foi América de Almeida; trazia à cabeça uma soberba grinalda de flores aquáticas, de extraordinária beleza e suave perfume.

O baile foi até cerca de 3 horas; as últimas notas da música anunciavam a madrugada.

Quanta recordação daquela noite longínqua!

Volvamos, porém, essa página; narremos outros fatos.

Em sessão extraordinária de 17 de novembro de 1868, resolveu a Câmara pedir a ss. aa. que descem nova denominação a algumas ruas da cidade.

Na sessão extraordinária de 15 de dezembro do dito ano: “O Exmo Senhor Presidente apresentou os nomes dados por Sua Alteza Imperial para as ruas – Nova do Campo, Direita e a que vai para a Matriz, sendo para a primeira – Rua do Imperador. Para a segunda Rua da Princesa Dona Isabel; e para a terceira Rua Conde d’Eu, como se vê na lista escrita por Sua Alteza, o Sr. Conde d’Eu. A Camara mandou que se observasse”, resolvendo ainda que se colocassem nos cantos das respectivas ruas os competentes nomes.
Não os conservam, hoje, as ditas ruas.

Naquele tempo, a cultura do fumo constituia uma apreciavel fonte de riqueza para o municipio de Bapendi. Na cidade existia uma próspera manufatura de fumos, que deixou nome – a de João Constantino Pereira Guimarães, a qual recebeu, então, as visitas de Isabel, Conde d’Eu e comitiva.

Cerca de duas horas da tarde, chegaram os visitantes à chácara, onde estavam instaladas as máquinas que laboravam o fumo.
Como provas, fabricaram-se, na ocasião, pacotes de fumo, de peso de libra.

A todos foi oferecido, depois, um copo d’água.

Ao retirarem-se, o conde manifestou seu agrado por tudo, fazendo votos pela prosperidade da indústria que visitaram.
Isabel trazia saia de montar; o conde, botas. A cavalo, partiram todos.

Anos e anos volvidos, em 1935, em Caxambu, penetramos, certa vez, em um salão antigo, de prédio já demolido; os moveis severos, os velhos quadros, as altas e lindas mangas de finíssimo cristal, protetoras da luz contra os ventos, a grande jarra de porcelana cara, a amplitude do aposento, o silêncio profundo que ali reinava, tudo, tudo falava do passado.

A dama, que dentro em pouco tão fidalgamente lá nos acolhia, fora, como sua culta irmã, testemunha veneranda de acontecimentos que temos narrado.

Eram ambas portadoras das vestes por nós descritas no baile de Baependi. Sobre tais acontecimentos falaram, e à lúcida memória de ambas devemos certos pormenores aqui mencionados.

Reviam, talvez com prazer pungente, aquelas cenas de outros tempos, lamentando o descaso de hoje pelas coisas veneraveis do passado.

E uma delas recordou-se, então, de outro baile, dado ao conde d’Eu, em Cruzeiro.

Por ele fora, nessa ocasião, tirada para dançar; não podia ela formular uma recusa. Tremia toda, de comoção, disse-nos.

O conde, ao contrário de outros cavalheiros, não tomava a dama pela cintura, quando dançava, mas, apenas, enlaçava-lhe delicadas mãos.

Gentil, interrogando-a sobre o local de seu nascimento, quando o conde soube que era filha de Baependi, repetiu-lhe o prolóquio, então corrente, sobre coisas boas: “Farinha, de Suruí; aguardente, de Paratí; café, de Piraí; fumo, de Baependi”.

Calou-se, depois, a dama; revia, talvez, doces reminiscências daquela noite de Cruzeiro ou da outra, tão distante já, do famoso baile de Baependi.

O salão recaia em silêncio; o ambiente era, agora, melancólico.

Vagavam, pelos ares, uns longes de saudades!…


Cronologia (1674 – 2001)

1674- Lourenço Castanho Taques – 1º desbravador da região avista o “morro Cuchumbu”

1706- O mestre de campo Carlos Pedroso Silveira, junto com seu genro, obtém sesmaria no local onde surgira a fazenda Caxambu.

1711- João Batista de Carvalho obtém sesmaria äonde chamam Cachambum”e Sebastião Fernandes Correia também obtém sesmaria em

1728 “por detraz do morro chamado Caxambu.”

1747- Estácio da Silva, morador da fazend Caxambu, pede permissão para construir capela em suas terras e obtém provisão em 1748.

1759- Caxambu é povoado, um bairro de Baependi, de acordo com registro no livro de óbitos daquele município.

1762- (ou 1772) Data citada no livro Baependi, de José Alberto Pelúcio, como da descoberta das fontes, segundo lembrança de
Teixeira Leal, em 1842.

1814- Primeiras notícias sobre o descobrimento das águas, 1844- Feliciano Germano de Oliveira Mafra desbrava a mata, encontra 3
fontes e começa a povoação do local onde hoje fica a cidade.

1849- Cura do vigário de Barbacena, que repercute por toda a província. A partir esse data uma série de personalidades conhecidas na época visitamCaxambu para se tratarem de doenças e começa a crescer a fama do lugar.

1852- João Constantino, Teixeira Leal e José Nogueira se associam para explorar as águas. Essa pode ser considerada a primeira empresa para exploração das águas, mas só em 1886 organizou-se a Cia. Das Águas Minerais de Caxambu sob a presidência do Barão de Maciel e dirigido pelo Dr. Polycarpo Viotti e Coronel Alexandre Pinto.

1861- Desapropriação das fonters do vale de Caxambu.

1863- O terrreno já estava limpo, as fontres “tapadas com tubos de taboa, jorrando-se por bicas de madeira. Havia um rancho com telhas para tropeiros e um prédio de pedra e cal coberto de telhas para receber doentes”- Livro de H. Monat.

1864- João Constantino faz uma casa de banhos sobre fontes que bortavam no lugar ocupado, hoje, pela fonte D, Pedro – Livro H. Mont.

1868- extrato do expediente da Diretoria Geral de Obras Públicas, publicado no Jornal “Notícias de Minas”, de Ouro Preto. Assunto: aporva propostas que fizeram os cidadãos Dr. Carlos Theodoro de ustamante, JoséLuiz da Silva Prado e José Ferreira Chaves, para comporem comissão encarregada de dirigir a conclusão das obras do estabelecimento balneário do Caxambu, mediante instruções ministradas pelo engenheiro Horta Barbosa.

1868- Oficio do eng. Júlio Augusto Barbosa acusando recebimento de carta oficial de 5\11 ëm que faz ver o estado das obras a aeu cargo no estabelecimento balneário do Caxambu, assim mo que a ida da corte ficou adiada até 14 do dito mês, por motivo da visita projetada ao estabelecimento por S.S.A.A Imperiais, declarando mais,m quanto as despesas extraordinárias realizadas por esse motivo sob sua responsabilidade, que deve apresentar em separado, carta documentada, afim de ser apresentada ao Governo e solicitar-se autorização para pagamento. Publicado no “Noticiador de Minas”, de Ouro Preto em 24 de dezembro.

1868- Chega a Caxambu a princesa Isabel, seu esposo Conde D’Eu e uma comitiva, atraídos pela fama das águas. A princesa buscava a cura de uma provável infertilidade. Ficam durante ummês, partindo em 17 de dezembro. Lançada , em novembro, pela princesa Isabel, a pedra fundamental da Igreja de Santa Isabel da Hungria, com a promessa de sua construção, casoa herdeira engravidasse.

1869- Ofício da Diretoria Geral de Obras Públicas dirigido ao eng. Horta Barbosa comunicando que ”Providencie vossa senhoria, em ordem, a que seja entregue, por inventário, o estabelecimento balneário do Caxambu à Câmara Municipal de Baependi, a quem, compete prover ;por meio der posturas, que deverá propor à Assembléia Legislativa Provincial, sobre a conservação e uso das fontes, bem como sobre a cobrança das taxas que julgar acertado impor, à benefício de ser os cofres na proposta do respectivo orçamento{…}. Publicado no “Noticiador de Minas” de 1º de março.

1870- Realização dos primeiros trabalhos de captação das fontes.

1873- Uma comissão é designada pelo governo da província para analisar as águas de Caxambu, resultando relatório em 1874, atestando suas capacidades curativas.

1873- Construção de estrada “zigue-zague”que leva ao topo do morro Caxambu, realizada com recursos de moradores e frequentadores da estrada.

1875- Criado em novembro, o distrito, com sede na provação de “Águas de Caxambu”, pela lei provincial nº 2175.

1875- Os direitos de exploração das água são abertos a iniciativa privada. É feita a concessão aos senhores: Conde Lage, Dr. Antônio Pereira e José Meireles. Não realizam trabalhos na área e o concessão caduca em 1883.

1879- Auto de inauguração do “Estabelecimento Balneário das Águas de Caxambu”, lavrado na Câmara Municipal de Baependi no dia 11 de agosto.

1881- A população de Caxambu era de 200 habitantes e já existiam 130 casa.

1883- A concessão de exploração das águas é dada ao Dr. Saturnino Simplício de Sales Veiga.

1886- É organizada a Cia. Das Águas Mineiras de Caxambu e Contendas, sob a presidência do Barão de Maciel, tendo como diretores o Dr. Polycarpo Viotti e o Cel. Alexandre Pinto. Entre 1886 e 1890 foram feitas as seguintes obras no Parque, pela Cia. Das Águas Mineiras de Caxambu:
• Captação das fontes, montagem de “chalets”- Viotti, D. Pedro e P. Isabel;
• Construção do Estabelecimento Balneário;
• Retificação do Bengo em 2 KM;
• Ajardinamento, arborização e gradil do Parque;
• Montagem do Hotel da Empresa, na chácara do Cel. Theodoro de Carvalho.

1890- O Dr. Saturnino de Sales Veiga vende a concessão ao Conselheiro Francisco de Paula Mayrink pelo preço de 515:000$000, sendo essa concessão de direitos, aprovada no governo de João Pinheiro em 26 de junho de 1890. Entre 1890 e 1905 foram realizadas as seguintes obras no Parque, pela empresa concessionária:
• Captação das fontes D. Saxes e Dona Leopoldina;
• Instalação do gradil de ferro em torno do Parque;
• Melhoramentos no Parque (não definem quais foram);
• Instalação do engarrafamento pelo processo da gaseificação, com gás da própria fonte.

1891- Implantação da via ferroviária em 15 de março.

1891- Confirmação em 14 de setembro, por lei estadual nº 2, da criação do distrito de Caxambu.

1893- Realizada a análise das águas, por uma comissão de químicos da Academia Nacional de Medicina.

1894- Criada a Freguesia de Nossa Senhora dos Remédios.

1894- Lei datada de 11 de junho, nomeia as ruas da Freguesia.

1894- Lei datada de 15 de setembro, prorroga prazo para construção de calçadas e passeios em frente as casa. Existia na época um Conselho Distrital (Caxambu pertencia a Baependi) que administrava o distrito. Caso as obras exigidas não fossem feitas o Conselho as realizava administrativamente e depois cobrava do proprietário.

1896- Nicolau Tabolar ganha licitação para iluminação pública a querosene de Caxambu.

1897- Inaugurada em 19 de novembro, a Igreja Isabel da Hungria.

1901- Decreto datado de 16 de setembro, cria a Vila de Caxambu, desmembrada do Município de Baependi.

1902- Instalação do município no dia 2 de janeiro. Praxedes da Costa é nomeado como Agente Executivo.

1902- Município busca iluminação elétrica mas acaba pondo em concorrência a iluminação a gás acetileno. Primeiro a cargo da Câmara Municipal, o serviço depois fica por conta dos próprios contratantes – Venâncio da Rocha Figueiredo e Nicolau Tabolar.

1903- As águas de Caxambu ganham medalhas de Ouro na Exposição Internacional de Saint Louis, nos EUA.

1904- Epidemia de varíola assola o município. Doentes são isolados em chácaras fora da cidade.

1905- Organizada uma nova empresa concessionária – Empresa das Águas Minerais Naturais de Caxambu, da qual foram diretores os senhores João Martins da Silva, José Gomes Guimarães, Octávio Guimarães e Luiz Guimarães . Entre 1905 e 1920 (data da publicação do livro “As águas minerais do Estado de Minas Gerais”, de Pádua Rezende), foram realizados os seguintes trabalhos no Parque:
• Construção do edifício do engarrafamento – projeto do arquiteto Alfredo Burnier;
• Construção do galpão de lavagem de garrafas;
• Construção do depósito de vasilhame;
• Construção do observatório meteorológico;
• Revestimentos dos passeios laterais e gradeamento do rio Bengo;
• Transformação do Parque: drenagem, nivelamento, arborização, construção de modernas instalações sanitárias;
• Captação das fontes Viotti e Mayrink;
• Revisão das fontes D. Leopoldina, Isabel, conde e condessa D’Eu;
• Construção do estabelecimento balneário, plano do Dr. Burnier em adiantado estado de construção.

1905- Nomeado o primeiro prefeito – Dr. Américo Macedo. Liberado crédito de 500 contos para realizar melhorias no município. Durante a gestão desse prefeito começam a ser realizadas obras básicas de água e esgoto.

1906- Chega a Caxambu o Padre José João de Deus, primeiro vigário da cidade. A paróquia é inaugurada em 1/1/1906.

1907- Fusão da Empresa das Águas Minerais de Caxambu com a Empresa de Lambari e Cambuquira.

1908- Solução para o abastecimento de água potável – governo compra área da “Chácara do Jacaré”, onde há uma nascente que abastecerá a cidade até 1937.

1910- Início da administração de Camilo Soares de Moura, trabalhando na urbanização de Caxambu – abertura de ruas, canalização do Bengo, pavimentação, construção do jardim da Praça 16 de Setembro, etc.

1910- A Empresa de Lambari, Cambuquira e Caxambu recebe diploma e honra na Exposition Universelle de Bruxelles, pelas águas da Fonte Intermitente (Beleza).

1911- Primeiro laboratório de Pesquisa e Análise Químicas das Águas, do Dr. Cadaval.

1912- Data inscrita nos vitrais do Balneário e em alguns projetos de pavilhões das fontes, vindos da Bélgica.

1913- Plantas e projetos dos Pavilhões do Parque, feitos na Bélgica. Início da captação e construção da Fonte Viotti, que recebe este nome em homenagem ao Dr. Polycarpo Viotti.

1913- Lavrado contrato entre o Estado e a Empresa das Águas Minerais de Caxambu, com prazo de vigência até o ano de 1973.

1913- Data inscrita no coreto da Praça 16 de Setembro – provavelmente de sua construção.

1915- O município é elevado a categoria de cidade em 18 de setembro.

1918- Trabalho de Francisco da Silva Reis, o Chico Cascateiro, no Parque.

1919- Inaugurada, em março, a iluminação elétrica do Parque. Visita de Rui Barbosa a cidade, na qual afirma: “Visitei, percorri, desfrutei por um mês, com admiração e encanto, o Parque das Águas, a organização do seu serviço, o sistema de exploração de seus produtos, É a medicina entre jardins de uma florescência deslumbrante (…).”

1924- Nova diretoria assume a administração da Empresa das Águas de Caxambu, composta pelos senhores Alfredo Guimarães (diretor), Álvaro Silva (superintendente), Edmundo Pereira Dantas (gerente).

1928- Realização do congresso das Estâncias Hidrominerais em Cambuquira. Durante este ano visitaram o Parque das Águas um total de 13.391 visitantes.

1929- Realização do Congresso das Estâncias Hidrominerais de Araxá.

1937- Visita de Getúlio Vargas à cidade para a inauguração da estrada de rodagem Areias – Caxambu.

1938- Caxambu perde o distrito de Soledade, elevado a categoria de município e também, uma parte do distrito sede, incorporado ao Município de Conceição do Rio Verde.

1938- A piscina do Parque das Águas é terminada.

1940- Projetos paisagísticos para reforma do Parque.

1943- Projetos paisagísticos para a reforma do Parque.

1943- Nova diretoria assume a direção da Empresa das Águas e do Parque. A nova administração passa a ser feita pelos senhores Cylio da Gama Cruz e Caio Gama Cruz. Edmundo Pereira Dantas permanece como superintendente de serviços.

1945- Proibição do jogo no país e fechamento dos cassinos do cidade.

1946- Uma planta do Parque mostra uma série de terrenos que foram desapropriados e anexados ao Parque, que passa a Ter uma área de mais de 200 mil metros quadrados.

1948- Instalada, em novembro, a Comarca de Caxambu.

1948- Demolida a antiga portaria do Parque e construída nova.

1949- Demolida a torre meteorológica. O seu relógio é transferido para o prédio do Balneário.

1956- Implementada a mecanização total no processo de engarrafamento das águas minerais.

1957- A população do distrito sede de Caxambu era estimada em 7.685 habitantes.

1958- Instituído em junho, por lei municipal nº 170, o emblema da cidade, de autoria de José Pereira Dantas e Edmundo Dantas Filho.

1961- O prefeito de Caxambu solicita à Hidrominas a emcapação da Empresa das Águas de Caxambu.

1968- Publicação do trabalho do Dr. Polycarpo Viotti – “As águas alcalino – gasosas do sul de Minas”, no qual faz uma análise comparativa do teor das águas das estâncias e afirma que Caxambu contava então, com 3.000 moradores.

1973- Termina o contrato de exploração das águas das Empresa das Águas Minerais de Caxambu. Em abril, a Hidrominas assume a exploração das águas e a administração do Parque.

1981- A comercialização das águas é privatizada. A exploração passa a ser feita pela Superágua (Supergasbrás e Estado).

1988- O Governo do Estado doa o Morro Caxambu para o município, em agosto.

1989- A administração do Parque é entregue a responsabilidade da Prefeitura Municipal, que realiza uma grande reforma no local.

1989- Inaugurado o teleférico que liga o Parque ao sopé do Morro Caxambu.

1997- Tombamento provisório do Conjunto Paisagístico e Arquitetônico do Parque das Águas de Caxambu, feito pelo IEPHA/MG.

1998- Aprovado pelo Conselho Curador do IEPHA/MG o tombamento do Conjunto Paisagístico do Parque das Águas de Caxambu.

1999- Implantação do Campus de Caxambu, da Universidade Vale do Rio Verde de Três Corações (UNINCOR), através do Decreto Estadual nº 40.519, de Três de agosto. Letras foi o primeiro curso autorizado. Posteriormente foram criados os cursos de Direito e Turismo.

2000- Instituído o Plano Diretor do Município (Código de Obras e a Lei de Zoneamento, Uso e Ocupação do Solo), elaborado pelo Departamento de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Viçosa.

2000- Inauguração do Ginásio Poliesportivo “Jorge Curi”.

2001- Centenário da emancipação político – administrativo da cidade.


Fatos e lendas de Caxambu

Da revista “Fontes da Vida “ ed. Julho de 1962

Os antigos contam, uns como lendas enquanto outros afirmam a veracidade dos fatos, que abriram o caminho do progresso desta cidade, com a descoberta das águas, narrando que alguns camaradas da Fazenda das Palmeiras, de propriedade de D. Luiza Francisca Sampaio, à procura de alguns cavalos desaparecidos, vieram dar no sopé do Morro, e penetrando na mata, viram jorrando pelo lamaçal uma mina d’água. Como estivessem com muita sede pela grande caminhada que fizeram até ali resolveram mitigar a sêde, e ao bebê-la, notaram o seu diferente sabor com muito espanto, admirados voltaram à fazenda levando aquela notícia, que logo se propagou por todo o Município de Baependi e dali para outras paragens.

Entretanto outros já contam diferente. Dizem de dois carpinteiros da Fazenda do Caxambu, à procura de um cedro, penetraram na mata, e descobrindo um de proporções adequadas ao seviço que empreendiam, resolveram derruba-lo. Entretanto ao deslocar as sua raízes, começou por entre as terras ali deixadas, jorrar uma corrente d’água turva que logo se transformou na mais pura e límpida corrente.

Enquanto desgalhavam o cedro sentiram sede e, ao provar da água notaram igualmente o sabor diferente e espantados, correram à fazenda levando a notícia da descoberta.

Não podemos afirmar essa ou aquela, seja a versão correta, e quanto à época podemos dizer que tais fatos ou melhor essas ocorrências, se deram mais ou menos pelo ano de 1813, embora o Escritor José Alberto Pelúcia em seu livro “Baependy” faça referências às recordações de Teixeira Leal, que em 1842 já dizia que as águas eram conhecidas desde 1762 ou 1772.

Quanto a essa suposição não possuímos documentários nem informações concretas no que se refere às recordações de Teixeira Leal.

Podemos como marco inicial de Caxambu, hastear uma bandeira em 1748, quando Estácio da Silva, solicitou ao bispado de Mariana licença para a construção de uma capela nos terrenos onde morava.

Em 1814 quando começaram a surgir as primeira notícias do descobrimento das águas minerais, ainda não possuía nenhuma casa nas proximidades das minas, que somente em 1844, começaram a surgir graças aos trabalhos de Felício Germano de Oliveira Mafra, que com dedicação e esforço desbravava o matagal existente e procurando descobrir novas fontes, cujas águas de efeitos medicinais, vinham chamado a atenção dos enfermos, que para aqui convergiam às dezenas, em busca de cura para seus males.

Graças a esse toque inicial impulsionado por Oliveira Mafra, uma nova era descortinou-se de progresso ininterrupto para este vale, para mais tarde vir a tornar-se a Hidrópolis mais querida e mais simpática ao povo brasileiro. Em 1841, em vista das notícias propagadas, da existência de “águas santas e miraculosas” para aqui chegavam diariamente pessoas com doenças as mais diversas em busca de cura. Foi notada uma grande quantidade de enfermos de Mal de Hansen, e em vista disso a fim de evitar o contagio, o Meritíssimo Juiz da Comarca de Baependy, Dr. Aleixo Teixeira de Carvalho, mandou intimá-los a deixarem o vale no prazo de 48 horas.

Mafra descobriu 4 fontes, sendo a primeira fonte que Caxambu possuiu, segundo nos afirma o Dr. Henrique Monat, foi extinta, devido a uma grande quantidade de cascalho que, contra a vontade de Mafra, foi depositadas por cima dela, pois pensavam eles que a água mais suja tinha maior poder de cura. Ate hoje não sabemos dizer onde existiu esta fonte. As 3 outras foram D. Leopoldina, D. Pedro e D. Isabel.

Embora, desde essa época começasse a afluir gente em busca de curas, o local desenvolvia-se lentamente e assim é que Nogueira Penido, citado pelo Dr. Monat, dizia: “Em 1852, quando ali fui pela primeira vez não existia nenhuma casa, e andei pelo brejo e matas procurando as fontes”.

Em 1861 somente, é que se foi estendendo verdadeiramente a sua fama, e foram as fontes desapropriadas pelo Governo da então Província de Minas Gerais, e a 16 de novembro de 1875, foi então criada a freguesia de N. S. dos Remédios de Caxambu.

Somente em 16 de setembro de 1901 é que foi criado o Município e Vila de Caxambu, desmembrando-se então de Baependy.

Em 2 de janeiro de 1905 foi instalada a Prefeitura passando o Município a ser administrado por um Prefeito nomeado pelo Governo do Estado, e a 18 de setembro de 1915 foi criado o termo judiciário, recebendo assim a categoria de cidade. Até 1947 foi administrativamente governada por Prefeitos nomeados pelo Estado e, em virtude da nova constituição, a partir de 31 de janeiro de 1948 a administração de Caxambu esta sendo exercida por prefeitos eleitos pelo povo do município.

Foi eleito nessa ocasião o ilustre médico Dr. Lysandro Carneiro Guimarães.

A Comarca foi instalada em 15 de novembro de 1948, tendo sido nomeado Juiz o Dr. Orlando Lopes Coelho que aqui permaneceu até sua promoção, no início do ano de 1956.

Entre os freqüentadores ilustres que visitaram esta estância nos primeiros tempos, destacamos o Padre Joaquim Camilo de Brito vigário de Barbacena, 1849; o Padre Corrêa de Almeida cujo nome foi dado ao Grupo Escolar local, o Duque de Caxias, Teófilo Benedito Ottoni, e em 1868 aqui estiveram a Princesa Isabel e o Conde D’Eu. Os nomes das fontes com denominações dos membros da família imperial, advêm da época.


Diário da Princesa

Diário da Princesa Isabel em Caxambu

Ainda jovem, contando as suas 18 primaveras de beleza e vida, entre festas e flores, casava-se a Princesa Isabel, em 1864, com Luiz Felipe Gastão Orleans, o Conde d’Eu. Dois anos depois triste e amarga realidade já se fazia sentir no coração de S.A. Toda a alegria, toda a felicidade vivida dissipara-se e transformara-se em um trágico e difícil problema, cuja resolução se resumia apenas na possibilidade ou impossibidade da concepção de um herdeiro.

Decorriam-se os tempos e a tristeza aumentava, estampada num contraste vivo, no semblante belo de S.A. Imperial. Aos tratamentos mais indicados submetera-se, as novidades e panacéias ultra-modernas da época lhe aplicadas foram e o resultado positivo, nada … Já na Côrte comentava-se a sua aflitiva situação e já, em seus pensamentos se debatia a triste realidade … Nesse sofrimento vivia S.A. Imperial, quando em meados do ano de 1868, como um farol que iluminando o mar encapelado o barco errante salva brilhou em sua vida uma estrela nova.

Notícias reconfortantes procediam da Europa.

As milagrosas curas de esterilidade pelas Águas Minerais, no Velho Mundo eram uma realidade. Sem perda de tempo, nutrida de esperanças novas, S.A. resolveu experimentar um tratamento in-loco, com as Águas Minerais de Caxambu, cuja propagação naquela época, ocupava a ordem do dia e já eram consideradas no Império como as melhores do mundo.

No dia 15 de novembro de 1868, a Princesa, acompanhada de seu esposo Conde d’Eu, do médico Dr. N. Feijó, do Conde e Condessa de Lages, do Conde de Aljezur e de outros amigos, deixava a Côrte do Rio de Janeiro, às 5h da manhã em trem expresso da Estação D. Pedro II, desembarcando às 10:40hs na Estação da Boa Vista (hoje Eng. Passos), onde almoçaram todos no Hotel Ferraz & Irmão. Após o almoço, em liteiras especiais de luxo, cedidas pelo Sr. Tte. Cel. João Evangelista de Souza Guerra de Baependy e outras pelo Sr. Benjamim Luiz Duprat da Fazenda de Três Pinheiros, às 12hs deram início à viagem de subida à Serra da Mantiqueira, fazendo a comitiva um pequeno lanche às 14hs no Hotel Palmital, seguindo logo para o Hotel da Floresta de propriedade da Sr. Luiz Jardim, três quartos de légua abaixo do registro do Picú, onde pernoitaram.

Às 5h do dia seguinte, encetaram de novo a viagem, indo almoçar em São José do Picú (hoje Itamonte) já do outro lado da serra, no Hotel de propriedade do Sr. Pereira, e às 14hs, passavam pelo arraial do Capivary para pernoite mais adiante em Pouso Alto. No terceiro dia, às 7hs retomaram a viagem, indo almoçar no Hotel Boa Vistinha, e assim, após 15 léguas percorridas desde a Estação da Boa Vista, precisamente às 16,30hs triunfal chegava a Caxambu a caravana de S.A., dia 17 de novembro de 1868, data que ficaria, como de fato ficou, na história de nossa Hidrópolis.

A primeira Dama do País, S. A. Imperial a Princesa Isabel filha do Monerca D. Pedro II, Imperador do Brasil, chegava a Caxambu, para uso de nossas águas minerais, não medindo o sacrifício da estafante e cansativa viagem daqueles dias. Grande era a multidão que a aguardava … tão grande, que se tornara pequena para acomodar a todos a nossa Caxambu da época. Procedentes de todos os recantos da Província, chegavam caravanas… Barracas se armavam em todos os recantos… todos desejavam conhecer a Princesa! E assim, entre flores, salvas de palmas, vivas e aclamações e ainda ao som da harmoniosa e alegre Banda de Música de Baependy, é que recepcionada foi, a comitiva de S.A., que em Caxambu se hospedou no Palacete de propriedade do Sr. Dr. Carlos Theodoro Bustamante, em frente ao já demolido Parque Hotel, onde atualmente se localiza, o edifício Pan-América.

Usou da palavra no ato da recepção, Felício Germano de Oliveira Mafra, Presidente da Câmara de Baependy, desejando à Família Imperial e muito particularmente a Princesa, uma feliz e proveitosa estada em Caxambu formulando ao ensejo um convite em nome do povo de Baependy para uma visita àquela cidade. Felício Germano de Oliveira Mafra, transformou-se daquele momento em diante, numa espécie de diretor do protocólo da Família Imperial, auxiliado pelo Visconde de Caldas e pelo Conde de Baependy.

No dia 18, em suas orações, fazia a princesa Isabel aquela promessa que se tornaria histórica … se conseguisse a concepção de um herdeiro, faria construir uma Igreja sob a invocação de Santa Isabel de Hungria. No dia 22, na parte da tarde, no alto da colina onde se localizava o cruzeiro ali plantado em 3 de maio de 1862, com a presença de grande número de pessoas, fez S. A. o lançamento da Pedra Fundamental da Igreja de Santa Isabel de Hungria. Diz o livro do Tombo da paróquia de Baependy, que este ato foi oficiado pelo Revmo. Pároco Mons. Dr Luiz Pereira Gonçalves de Araújo e tendo como ajudante o Rev. Pe. Capelão João Pires de Amorim, acolitados pelo então seminarista Marcos Pereira Gomes Nogueira.

Vejamos a ata dessa solenidade:

“Aos vinte e dois dias do mês de novembro do ano do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil oitocentos e sessenta e oito (1868) na Povoação das Águas de Caxambu, Cidade de Baependy, Bispado de Mariana Provícia de Minas Gerais do Império do Brasil, no reinado de Muito Alto e Poderoso Senhor Dom Pedro Segundo e no Bispado do Excelentíssimo Senhor Conde da Conceição Dom Antônio Ferreira Viçoso, na presença da Câmara Municipal da mesma cidade de Baependy, sua Alteza Imperial, a Sereníssima Senhora Princesa D. Isabel Condessa d’Eu acompanhada de seu Augusto Esposo, o Sereníssimo Senhor Príncipe Dom Luiz Filipe Gastão de Orleans Conde d’Eu, e outros dignou-se lançar solenemente a pedra fundamental para a edificação de uma Igreja com a invocação de Santa Isabel de Hungria, solenidade esta a que se procedeu sendo a pedra benta segundo cerimônia marcada pela Igreja, oficiando o Reverendo Senhor Monsenhor Luiz Pereira Gonçalves de Araújo e conduzida processionalmente até o lugar competente onde foi colocada por sua Alteza Imperial, no sítio em que deve ser levantado o alicerce da referida Igreja.

E eu Alexandre Manoel Vieira de Carvalho visconde de Lages Grande do Império veador de sua Majestade a Imperatriz no serviço de Suas Altesas Imperiais, lavrei este têrmo em duplicata o qual sendo assinado pelas pessoas de sua Altesa Imperial indicou, será contido com as moedas e jornais da presente época na caixa colocada da pedra fundamental ad perpétuam rei memoriam sendo o outro autógrafo remetido para os arquivos da Câmara Municipal da Cidade de Baependy”.

Ass. Visconde de Lages Isabel Princesa Condessa d’Eu Gastão de Orleans. Mons. Luiz Pereira Gonçalves de Araújo vigário da Vara, José Pedro Américo de Matos, (comendador), o Capelão de SS. AA. Imperiais Padre João Pires de Amorim, Jonas Inácio de Carvalho, Antonio José Gomes de Carvalho, Dr. Manoel Joaquim Pereira de Magalhães, Major Teófilo José de Andrade, José Ruiz Pinheiro, Francisco e Paula S… Antônio Máximo Ribeiro da Luz (Juiz de Direito), Antonio Carlos Carneiro Viriato Catão (Juiz Municipal), Antonio Torquato Fortes Junqueira (Promotor Público), Luiz Antonio de Oliveira (Comandante Superior), Carlos Teodoro de Bustamante, Visconde de Lages, Cons. Luíz de C. Feio, Major Hilário Mariano da Silva, servindo de mordomo de SS. AA.

Nota: O documento acima encontra-se em perfeito estado de conservação, conf. décimo quinto Anuário da Diocese da Campanha. Pág. 23 Publicado em 1953.

Em sua firme esparança prosseguia a Princesa, religiosamente o seu tratamento com o uso das águas minerais. No dia 24 de novembro, atendendo ao convite formulado por Oliveira Mafra, transportou-se com toda sua comitiva para Baependy onde grandioso programa havia sido elaborado. Missa Solene, Banquete, Visitas Te Deum, O Beija Mãos eo Histórico e Pitoresco Baile do Paço da Câmara. Hospedou-se a Princesa e sua comitiva no Palacete de propriedade do Comendador José Pedro Américo de Mattos. Este prédio ainda exite, situando-se na esquina da rua Senador Alfredo Catão com a rua Dr. Manoel Joaquim naquela cidade vizinha, mais tarde foi transformado em hotel (Hotel do Comércio) e até pouco tempo pertenceu ao Sr. Marcelino Ferreira e atualmente foi vendido para o Clube de Baependi ( Botafogo ).

Regorgitava aquela cidade ante ao auspicioso acontecimento. Todas as ruas garbosamente enfeitadas e ao som festivo dos sinos das Igrejas, das Bandas de Músicas em desfile pelas ruas, também chegava a Baependy, a fina flor da aristocracia da Província Sul Mineira para conhecer a Princesa. Relata-nos um episódio um tanto quanto pitoresco sobre o assunto o jornal “O Patriota” de 27 de julho de 1935, de cujas páginas coligimos os dados que a seguir iremos reportar.

O Comendador José Pedro Américo de Mattos, era figura de grande projeção política e social, gozando de grande conceito e estima em toda região do Sul da Província. Foi deputado à constituinte mais tarde e naqueles tempos, embora não fosse formado, advogava na Comarca de Baependy, graças a sua grande inteligência e sagacidade. Não obstante a empanar-lhe as suas qualidades, havia um fator terrível na época _ a sua tez. A sua cor morena, bem morena, e porque não dizer mulata, era uma característica mais ou menos indiferente aos de seu sexo, no entanto, naqueles tempos, era motivo de funda abstenção por parte das senhoras. Estas, todas as vezes que a ele se referiam, não dispensavam nunca a dolorosa advertência – Inteligente sim, mas é um homem de cor!… Era esse homem de cor, que estava hospedando em Baependy, em sua residência, a primeira dama do País, S. A. Imperial a Princesa Isabel e toda a sua comitiva.

Às 20hs. estava marcado o Balie do Paço da Câmara e o povo já de muito se aglomerava na praça… na hora exata chegava o séquito de S. A. Quando a Princesa cercada de suas damas de honra desceu de sua liteira, houve um movimento de verdadeiro suspense. Palmas e vivas, ecoaram desde o Palacete da Comendador Mattos, até à frente da Câmara. O salão estava elegantemente decorado com as armas do Império e um grande quadro a óleo de S. M. o Imperador, pendia na parede azul do salão nobre, onde se erguia o trono entre graves cortinas de Damasco. A orquestra ensaiava já as primeiras notas, enquanto ansiosamente os pares aguardavam o início do baile.

Ostentava a Princesa, um amplo vestido rodado de fulgurante seda ouro velho, que aliava a perfeição do corte à extrema e elegantíssima simplicidade; busto comprimido na telas de um mimiso corpete acoletado e seu rosto estava como que nimbado de estranha claridade. Eram seus cabelos acastanhados e se abriam numa risca central juntando-se em duas ondas por trás das orelhas, onde luziam dois purríssimos brilhantes emoldurando o rosto claro quase infantil e maviosa expressão. Toda a beleza de seus 22 anos ali resplandecia…

Abrindo o Baile, conforme protocolo S. A., dançou com o Presidente da Câmara Felício de Oliveira Mafra. O Comendador Mattos, apreciava o Baile numa das poltronas do lado oposto ao trono, pois não ousava tirar nenhuma daquelas aristocráticas senhoras ali presentes. Não obstante a perspicásia de S. A. que há muito o observava não tardou muito a se fazer sentir. A um pedido de S. A. a orquestra deu início à execução de uma linda valsa vienense… nesse mesmo instante, houve entre todos os presentes, um movimento de espanto, quase de estupor. O conde, tomando a Princesa pela mão, como se fosse com ela dançar, levara-a ostensivamente para o meio do salão e bem em frente ao Comendador, lha deu como par. Pertubou-se o Comendador Mattos, ante tamanha honra para ele. Quê?!… Vinha o Sr. Conde, dar-lhe a Princesa para dançar? A ele o homem de cor, o homem sempre repudiado pelas damas da sua terra? Não, não era possível! Mais parecia um sonho!

D. Isabel sorria, adivinhando no enlevo a felicidade traída inconscientemente nos gestos do Comendador. Este por sua vez, refeito de tão agradável surpresa e já de posse de sua costumeira elegância, saiu pelo salão, rodopiando a melodiosa valsa com a Princesa. Dizem que jamais presenciaram em Baependy uma peça tão bem dançada e por um par tão perfeito.

Foi tal a estupefação que, durante todo o tempo em que dançavam, suspensos, maravilhados, se deixavam todos ficar, ante tão belo espetáculo, imóveis em um grande círculo comtemplando o par. Logo ali fora correu pela multidão ávida de sensações, a notícia alarmante, que era como um grito de vitória: -A Princesa está daçando com o Comendador Mattos!

Findara a valsa, sob o pretexto de uma ligeira indisposição retirou-se a Princesa do Baile. Após a interrupção causada pela retirada de S. A. recomeçaram as danças, valsas, mazurkas, schottiches e outras peças em moda na época. Coisa curiosa, daquele momento em diante todas as atenções eram voltadas para a figura do Comendador Mattos. As respeitáveis damas, as fidalgas senhoritas a ele dirigiam insistentes olhares, que eram acintosos convites. Mas, o Comendador sereno, voltara a sentar-se na mesma poltrona, e a olhar distraidamente através de um espelho de frente o movimento da rua. Neste instante em que divagava, uma elegantíssima e formosa dama, de todas a mais formosa e aristocrática, dele acercou-se insinuando-lhe sentir imenso prazer em tê-lo como par, ao que respondeu-lhe o Comendador em magnífica desculpa, que fez sucesso e esmagou de uma vez para sempre, os preconceitos até então reinantes:

- Não, minha senhora, muito obrigado, mas queira excusar-me. Porque, quem dançou com a Princesa, com outra mulher não pode dançar!

Nos dias 25 e 26 muito descansou S. A., após as festividades de Baependy. No dia 27 com seus convivas, fez abrir uma subscrição de donativos para dar início à obra de construção da Igreja de Sta. Isabel. A referida subscrição produziu a importância de 4.000.000, quantia bastante razoável na época.

No mesmo dia, devidamente rubricado pelo Meritíssimo Juiz Municipal de Baependy, Viriato Catão, fez abrir o livro de Atas de Reuniões dos membros da irmandade de Sta. Isabel da Hungria. No dia 29 foi feita a primeira reunião conforme ata que a seguir transcrevemos:
ATA DA PRIMEIRA SESSÃO DOS MEMBROS DA IRMANDADE DE Sta. ISABEL DA HUNGRIA SOB A PRESIDÊNCIA DE S. A. O CONDE D’EU.
Aos vinte e nove dias de novembro de mil oitocentos e sessenta e oito achando-se presentes os membros da mesa, provedor Tte. Cel. João Evangelista de Souza Guerra, vice-provedor Aferes José Pedro Américo de Matos, tesoureiro Dr. Carlos Teodoro Bustamante, procurador Francisco Viotti, administrador José Luiz da Silva Prado, secretário Antonio Torquato Fortes Junqueira, disse S. A. o senhor Conde d’Eu que convocava aquela reunião a fim de tratar do compromisso da Irmandade e tomar-se algumas providências a respeito do andamento das obras da igreja e depois de algumas observações dos membros da mesa deliberou-se, que se oficiasse ao Mons. Dr. Luiz Pereira Gonçalves de Araújo pedindo que se incumbisse de formular o compromisso, ficando este sujeito à aprovação dos membros da mesa.

Deliberou-se igualmente que ficasse esta mesma mesa nomeada por S. A. senhor Conde d’Eu até ser aprovado o compromisso pelos poderes competentes. Por indicação do Sr. Dr. Carlos decidiu-se que nenhuma festa se faria antes de estar o templo concluído ou pelo menos em estado que pudesse servir para celebrar-se Missa. Por indicação do senhor Guerra decidiu-se que as jóias que os membros da Irmandade e empregados concorressem fossem empregadas na construção do templo. Resolveu-se igualmente que o tesoureiro Sr. Dr. Carlos ficasse incumbido de mandar vir já uma máquina de fazer tijolos e que servisse igualmente para fazer telhas francesas, chatas, e que se contratasse um operário que soubesse trabalhar com a dita máquina: e ainda mesmo entendendo-se para esse fim com o Comendador Mariano Procópio Ferreira Lage para ceder um dos que trabalham em seu estabelecimento até que haja quem saiba trabalhar com a dita máquina.

S. A. o senhor Conde d’Eu ofereceu a considerações da mesa alguns desenhos de templos para servir de modelo ao que já escrevera para a Europa pedindo planos modernos de igreja resolvendo esperar os ditos planos, para depois deliberar-se qual deveria servir na obra projetada: Como porém esta espera não impediria o começar alguns trabalhos preparatórios, deliberou-se que o procurador e o administrador desde já se incumbisssem de contratar pedras e puxá-las para o lugar onde se tem de edificar o templo. Resolveu-se igualmente que se oficiasse as pessoas que já tenham feito uso destas águas pedindo coadjuvação pecuniária para poder-se levar adiante a projetada obra.

Nada mais havendo a tratar S. A. levantou a sessão e eu Antônio Torquato Fortes Junqueira, secretário interino lavrei esta ata que vai assinada por S. A. o senhor Conde d’Eu e membros da mesa.

Ass.- Gastão de Orleans – João Evangelista de Souza Guerra – Carlos Teodoro Bustamante- Francisco Viotti – José Pedro Américo de Matos – José Luiz da Silva Prado.

Não podemos afirmar o número de dias que S. A. permaneceu em Caxambu. Não obstante, podemos afirmar que ela regressou à Corte cheia de vida, alegre, feliz e nutrida de novas esperanças… Estava curada? O tempo logo haveria de responder esta pergunta… Sim, a Princesa estava curada de fato, pois logo, três lindos e robustos varões seus, garantiam a perpetuação dos Orleans e Bragança: D. Pedro do Gran Pará, D. Antonio e D. Luiz. E a igreja Santa Isabel, erguida no alto da mesma colina onde em 22 de novembro de 1868 foi plantada a Pedra Fundamental, ali permanece firme num fiel testemunho daquilo tudo que aqui reportamos.

IGREJA SANTA ISABEL

Como dissemos, após o lançamento da Pedra Fundamental da Igreja Sta. Isabel em Caxambu, em 22 de novembro de 1868 vontade da Princesa Isabel, foi feita um subscrição que produziu cerca de 4:000$000. Iniciados os trabalhos, não obstante o interesse de seus promotores, não puderam completá-los. Com os acontecimentos políticos que foram se agravando a obra sofreu um interrupção. A Princesa contudo não olvidou o seu nobre empreendimento. Tanto assim que pediu ao seu esposo Conde d’Eu que escrevesse uma carta cujo teor aqui transcrevemos:

Exmo. Sr. Cons.º Joaquim Delphino, Tendo de retirar-me, bem apesar meu, deste país, não quero deixar de mais uma vez recomendar à sua proteção, em nome da Princesa e no meu, a conclusão das obras da Capela de Santa Isabel da Hungria, no arraial de Cachambu, município de Baependy. Estas obras pias projetadas desde seu comêço pela Princesa, teve certo impulso principalmente devido aos esforços de V. E. e de seu ilustre filho o distinto engenheiro Dr. Christiano Ribeiro da Luz. Seria para nós grande satisfação, saber que não fica ela abandonada, mas que marcha para a sua conclusão.

Confiado pois no espírito religioso de V. E. e de seu digno filho e nos sentimentos da amizade que nos tem mostrado, ouso esperar que mais uma vez tomarão em mão este piedoso empreendimento. Aproveito com prazer esta oportunidade para reiterar-lhe a expressão de meus sentimentos de particular consideração e estima.

Ass. Gastão de Orleans. Bordo da Canhoneira “Parnaiba”, Rio de Janeiro, 17 de novembro de 1889.

É de se notar o afeto, a delicadeza e o sentimento da Redentora num momento crucial de sua vida lembrando-se de Caxambu e de sua promessa. Dois dias depois a Proclamação da República, a bordo da nave que a levaria ao exílio, o Conde d’Eu escrevia a carta transcrita. Seus devotados amigos, tomaram a si o empreendimento. O Cons. Mayrink, pôs toda sua dedicação à obra planejada e levou avante a contrução da igreja.


História do Parque das Águas e de Caxambu

É imprecisa a data da descoberta da primeira fonte, mas, no começo do século XIX a região já era visitada. No início era apenas uma mina d’água de difícil acesso aos doentes. Em 1841 o local foi abandonado e um riacho encobriu a fonte. Dois anos depois, um negociante de Barra Mansa, Antônio de Oliveira Arruda, desmatou a área, descobriu uma nova fonte e promoveu obras no lugar. Foi construído um rancho de madeira onde foram instaladas duas banheiras que serviram até 1868.

Em 1849 foram descobertas quatro fontes, das quais uma secou e três permaneceram, cada uma com um tipo de água: gasosa simples (D. Pedro II), ferruginosa (D. Isabel) e sulfurosa (D. Leopoldina). O local continuava sem nenhuma infra-estrutura.

Em 1852, João Constantino Pereira Guimarães e Teixeira Leal, um estudioso da natureza das águas, se associaram a José Nogueira, proprietário das fontes, herdadas da partilha da Fazenda Caxambu. Os sócios construíram um local para receber os doentes e uma mercearia para venda de gêneros alimentícios. Os banhos eram gratuitos. A fama das águas começou a mudar de “santas” para ” virtuosas”, uma vez que as curas passaram a ser registradas. Em 1861, foi proposta a desapropriação das fontes e do vale para a construção da cidade.

Somente em 1868 foi liberado um crédito e designado um engenheiro, Júlio Augusto Horta Barbosa, para a retomada das obras necessárias à chegada da Princesa Isabel, que buscava a cura de uma provável infertilidade. Continuaram os melhoramentos, como um novo aterramento das áreas próximas às fontes, o ribeirão do Bengo foi canalizado e seu curso foi desviado para não afetar a qualidade das águas minerais. Pela primeira vez foram construídas coberturas para os “poços” e a abertura das fontes foi afunilada, facilitando o acesso às águas. As obras dotaram o local da infra-estrutura necessária para a instalação de hotéis e para a fixação de moradores, fazendo crescer o povoado. Os doentes podiam, agora, permanecer durante todo o ano. Em 1873, foi aberta a estrada “zig-zag” que leva ao topo do morro Caxambu com recursos de moradores e freqüentadores da estância.

O ano de 1875 foi de grande importância para o povado, pois além de tornar-se Distrito de Baependi, as virtudes curativas de suas águas foram reconhecidas, tendo sua exploração concedida pelo governo da Província de Minas a empresas particulares. Nesta época (1881) a cidade contava com apenas 200 habitantes efetivos, 130 edificações e iluminada por 21 lampiões a querosene. Em 16 de setembro de 1901 é criada a Vila de Caxambu. Época de grande desenvolvimento, foi neste período que foram feitas as principais obras de infra estrutura, como serviços de água e esgoto, aberturas e calçamento de ruas, avenidas e praças, canalização do ribeirão Bengo etc.

Em 1886, organizou-se a Cia das Águas Minerais de Caxambu sob a presidência do Barão de Maciel e dirigido pelo Dr. Polycarpo Viotti e Coronel Alexandre Pinto. Nos quatro anos seguintes, a companhia fez a captação das fontes, montagem de chalets – Viotti, D. Pedro, P. Isabel – a construção do Estabelecimento Balneário, a retificação do córrego Bengo em 2 km, o ajardinamento, arborização e gradil do parque e a montagem do Hotel da Empresa, na chácara do Cel. Theodoro de Carvalho. Em 1890, a concessão é vendida ao Conselheiro Francisco de Paula Mayrink que, até 1905, promove a captação das fontes Duque de Saxe e D. Leopoldina, a instalação do gradil de ferro em torno do parque, e a instalação do engarrafamento pelo processo da gaseificação, com gás da própria fonte. Durante a administração do Conselheiro Mayrink, as fontes foram cobertas, a maioria seguindo o estilo pitoresco de chalés, presente também na arquitetura do balneário, hotel da Empresa, restaurante e diversas edificações locais. O estabelecimento balneário, embora terminado, funcionava com o serviço hidroterápico incompleto, devido à falta de um técnico que pudesse atuar nos banhos.

Nessa época, a vegetação do Parque resumia-se a bambuzais em suas extremidades norte e sul e cedros em sua área central. Não havia qualquer tratamento paisagístico, embora o gramado fosse bem cuidado e se cultivassem flores como beijos de frade, margaridas, dálias, magnólias e roseiras. A falta de recantos sombreados era um problema que impedia o seu uso nas horas mais quentes do dia. Além disso, a falta de sanitários, associada com os poderes diuréticos das águas, também era assinalada como motivo para a pouca freqüência de turistas.

A chegada do século XX trouxe a criação da Vila de Caxambu, desmembrada de Baependi (16-09-01) e a instalação do município (02-01-02). Nas duas primeiras décadas do século XX, foram vários os melhoramentos como coberturas, banheiros e instalações sanitárias. O lado esquerdo do Parque oferecia quadras de tênis, futebol, balanços e outros jogos. Data dessa época, a instalação dos pavilhões das fontes D. Leopoldina, Beleza (ou lntermitente), Duque de Saxe e Viotti, todos em ferro fundido. Em 1911/12, foram edificados o Estabelecimento Balneário e o prédio do engarrafamento (1911), além do galpão de lavagem de garrafas e o depósito de vasilhames. No biênio 1912/13, foram projetados, na Bélgica, os pavilhões metálicos que, no entanto, parecem ter sido instalados somente após 1917. No ano seguinte, trabalhou no Parque Francisco da Silva Reis, o Chico Cascateiro. As obras de ajardinamento e paisagismo, com várias espécies de flores, realizadas nesse período, deram notoriedade ao conjunto. Em março de 1919, foi inaugurada a iluminação elétrica do Parque.

Por volta de 1920, o Parque, com aproximadamente 52.000 metros, terminava na fonte Mayrink, O limite era cercado de tela e o local que, 3 décadas depois, se transformou em lago, era ocupado por residências com grandes quintais e pomares. As décadas de 1920 e 1930 foram de grande desenvolvimento para a cidade que passou a ser a mais conhecida e procurada entre as estâncias hidrominerais. O poder público colaborou para as melhorias na urbanização, saúde e serviços. Em 1938, foi construída uma piscina externa, do lado esquerdo do Balneário, abastecida por águas minerais radioativas retiradas da Fonte Mayrink. Com “lava-pés” e toda revestida de azulejos, a piscina ainda era iluminada, proporcionando um belo espetáculo à noite. Anexo a ela, foram construídos vestiários e instalados bancos e mesas. No “Roteiro Balneário” de José Casais, em 1942, o parque foi retratado como “ideal”, com avenidas amplas e arborizadas, quioques rústicos com mesas, jardins maravilhosos e as fontes protegidas pelos elegantes pavilhões. Destacavam-se o imponente edifício do Balneário e a piscina, da qual se orgulhavam os caxambuenses. O parque possuía também um rink de patinação, construído na mesma época da piscina e campos de tênis, “play ground”, além do delicado coreto.

Com a proibição do jogo no país e fechamento dos cassinos em 1945, a cidade entrou em um período de estagnação e precisou enfrentar a queda do fluxo dos turistas. A área, ocupada por residências, começou a ser desapropriada a partir daquele ano para a construção do lago. Com uma extensão de 51.000 metros quadrados, a obra só seria finalizada na década de 1950. O novo limite do Parque foi demarcado por um muro de arrimo. A área ao redor do lago foi gramada, transformando-se num jardim panorâmico. As alamedas próximas às fontes foram calçadas com pedra São Tomé nas partes de maior movimento. Foi captada a Fonte Venâncio e construído seu pavilhão

Caxambu hoje, ano de 2009, é um município localizado na região sul de Minas Gerais, na Serra da Mantiqueira, sendo conhecida como importante instância hidromineral e considerada uma das principais cidades do circuito das águas de Minas Gerais. Com altitude de 895 m, tem climatropical de altitude, com média anual de 17°C e a média do verão  de 21°C.

O Parque das Águas “Dr. Lisandro Carneiro Guimarães”, de Caxambu, tombado pelo Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico (Iepha) é o principal ponto turístico e cartão de visita do município. Possui uma área de 210 mil m2, onde estão localizadas o balneário hidroterápico e as 12 fontes de águas minerais, cada uma com suas características próprias.


A origem do nome Caxambu

A palavra Caxambu teve origem indígena em Catã-mbu, no dialeto tupi dos antigos habitantes índios cataguases  que habitavam a região e significa “Água que Borbulha” ou “Bolhas a ferver”. Existem outras hipóteses quanto ao nome da cidade: alguns dissem que é de origem africana e devia grafar-se cachambu, porque vem de duas palavras africanas: cacha (tambor) e mumbu (música). O vocabulário, no tempo dos escravos, designava não só o instrumento que eles tocavam nas danças, mas ainda a própria dança ou batuque. Outros diziam ainda que as águas das fontes, principalmente quando ainda um grande brejo ali dominava, produziam, borbulhando, um murmúrio mais ou menos violento e de certo modo comparável ao rufar do tambor dos escravos.

Outra versão também aceita diz que o nome é de origem Tupy. Caxambu – caa – umbu, que significa “Murmúrio da selva”. De qualquer forma, independente da origem do nome a cidade é um lugar que vale a pena conhecer.